May 7, 2018 -

As told to T. Cole Rachel, 2113 words.

Tags: Writing, Inspiration, Process, Beginnings, Identity.

Escritor Nuno Costa Santos sobre o que significa ser um artista açoriano

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Escreveste para quase todos os géneros imagináveis. Além disso, escreveste ainda para o palco e para o ecrã. Como é que começaste? Começaste por um género em particular? Como é que o teu processo evoluiu?

Comecei a escrever pequenos contos na casa onde vivia, em São Miguel, nos Açores (freguesia do Livramento). Escrevia histórias inspiradas nos livros juvenis que lia. Lembro-me de, aos 13 ou 14 anos, ter escrito uma história policial que o meu pai depois encontrou. Ele perguntou-me: “Foste tu que inventaste isto?” Com um certo orgulho, respondi-lhe que sim. Estava influenciado pelas leituras que fazia. Depois fui escrevendo poemas e crónicas. A certa altura do meu crescimento, depois de ter visitado a estante da biblioteca do meu pai (foi aí que encontrei o livro que mais me marcou até hoje, “O Estrangeiro”, de Camus), comecei a ter necessidade de mandar vir livros do continente português. Sobretudo livros de poesia. Lembro de um livro de Hölderlin e outro de William Blake. Pedi aos meus pais, que iam fazer uma viagem, para trazerem de Lisboa esses livros. Eram livros algo específicos, que dificilmente encontraria nos Açores.

Acho que é importante dizer que também sempre fui muito influenciado por música. Fazia parte de um grupo de amigos que gostava muito de música. Nós vivíamos nos Açores e mandávamos vir discos da Contraverso, uma loja de música independente situada no Bairro Alto, em Lisboa (hoje já não existe), imensos discos. Discos muito variados. Desde o catálogo da 4AD até ao John Zorn, passando pela Meredith Monk e pelos Zoviet France. Também acompanhámos o movimento madchester, com os Stone Roses, os Inspiral Carpets, os Happy Mondays, os New Fads. Ouvimos os Ride, os Slowdive e os My Bloody Valentine. E os De La Soul, Public Enemy, Ice-T. E jazz.

Literatura e música, sobretudo. E cinema, e alguma pintura e escultura, também. Foram estas as artes que me formaram enquanto, durante a adolescência, vivi nos Açores.

Os nossos leitores estão muitas vezes interessados no processo. Como é que trabalhas? Tens algum ritual ou método específico enquanto trabalhas?

Escrevo muito num café relativamente próximo de casa. Gosto de rituais. De cumprir sempre o mesmo ritual. De ir até ao café, de me sentar, de abrir o portátil e de, após uma visita ao noticiário do dia, começar a escrever. E gosto de dividir as horas. De planear o meu dia de acordo com as necessidades de escrita que tenho.

Quando tenho de escrever um romance ou um texto longo reservo as manhãs para a tarefa. Só com esse tipo de disciplina consigo avançar a sério na escrita.

Também gosto de escrever em bibliotecas, embora às vezes me faça falta o barulho em redor. Gosto de escrever com vida à minha volta.

Ando sempre com um bloco de notas para apontar ideias quando estas me ocorrem. E às vezes consigo perceber a minha letra!

Como é que o processo difere quando se trabalha em ficção ou ao invés de poesia ou algo para a televisão?

A ficção, a ficção longa (romance), é um exercício de disciplina pura e simples. Uma pessoa vai anotando ideias em cadernos e depois tenta ordená-las narrativamente. Sou defensor de que haja um número de horas diário destacado para a escrita dessa ficção longa. Se não, é fácil uma pessoa perder-se e distrair-se.

A poesia é um género que também precisa de disciplina - sobretudo na parte da revisão dos poemas. A escrita, em si, dos poemas é um gesto que pode ser considerado mais espontâneo - pode ocorrer em várias situações do dia-a-dia. O importante é ter sempre onde registar as ideias. E depois poder trabalhá-las.

Em televisão o trabalho é profissional. E há a deadline, que orienta a vida de todos os argumentistas. Há objectivos, há prazos, há equipas que estão à espera dos nossos textos. É um processo colectivo que não se compadece com atitudes românticas em relação à criatividade.

Para jovens escritores, qual é a importância de tentarem trabalhar em diferentes géneros? O que se pode aprender com isso?

Tenho a convicção de que experimentando géneros diferentes um escritor pode evoluir ou, pelo menos, perceber o que quer e o que não quer fazer. Por outro lado, há géneros que se interligam, que comunicam. E há ainda a da experiência, que é ainda mais forte quando se começa a escrever. Esse jorro de ideias que muitos artistas e criativos têm quando são jovens merece ser transformado em qualquer coisa, em esboços de obras de arte. Mesmo que depois não sejam as criações que mais valorizamos.

Acho que os jovens escritores também devem ouvir muito. Ouvir as pessoas nos cafés, nas ruas, no metro, no autocarro, nos mercados, em casa. Apurar o ouvido vai ajudar na escrita, de diálogos, sobretudo. Um escritor é um transformador e para transformar é preciso absorver as matérias-primas. As palavras dos outros são uma delas e uma das mais importantes.

És considerado um escritor açoriano. Em que medida o teu trabalho é influenciado pelos Açores, seja pela paisagem ou pela cultura? Qual a importância de representares os Açores no teu trabalho? Até que ponto é importante para qualquer artista, independentemente de onde seja, criar trabalho que fale da cultura de onde vem?

Eu gosto dessa designação “escritor açoriano”. Tenho até um certo orgulho nessa associação entre a minha condição de escritor e a minha terra. Não tenho medo do local, do regional, da ligação entre a escrita e um chão concreto. Embora, na maior parte das vezes, seja só descrito como escritor ou como argumentista ou como jornalista e crítico, a categorização como autor açoriano é-me simpática por causa da questão da identidade.

Hoje há muito a vocação do cosmopolitismo, mas a ligação a um chão concreto não é incompatível com essa respiração confortável em vários lugares do mundo. O país açoriano é um território que me acompanha mesmo quando estou fora. Em Lisboa, onde vivo, por exemplo. Não quer isso dizer que esteja sempre a pensar nele, mas ele está lá, sempre pronto a revelar-se quando as circunstâncias o chamam ou quando é convocado por mim.

A literatura que li até hoje e todas as minhas vivências influenciam a minha escrita. E sinto que a paisagem e a meteorologia açorianas também influenciam o que escrevo. Quando escrevo sobre os Açores procuro deixar-me influenciar pelos humores do clima e da paisagem. Acho que faz todo o sentido.

Quero escrever muitas histórias sobre o arquipélago. Porque há muito boas histórias para contar dos e sobre os Açores. Como tenho um gosto especial em partir de histórias reais - que ouço aqui e ali, que encontro em jornais -, sinto vontade de ir pesquisá-las, para depois tentar transformá-las em literatura.

Penso que os Açores precisam de ser mais contados - nas suas tradições e nos seus contrastes, nas pessoas que lá vivem há muitos anos e nas que chegaram agora, nas lendas perdidas e nos novos episódios. E sinto que eu, como escritor, tenho esse dever de os contar. Uma das missões da escrita é retratar os espaços, as origens, o lugar de onde se vem. Uma das minhas ligações com alguma da escrita americana (por exemplo) tem a ver com isso: com a ligação à terra. Muitos dos escritores americanos dos quais gosto escrevem sobre as suas pequenas terras e as suas gentes. Encontrar aí o potencial para contar a história dos homens e da humanidade é o desafio.

Na mesma linha de pensamento, várias pessoas com quem conversei no Tremor descreveriam certa arte ou música como sendo particularmente açoriana. Dir-me-iam, por exemplo, “Oh, isso é muito açoriano” ou “Isso é Açores”. Existe uma tradição especificamente açoriana nas artes e na literatura? Como é que descreverias isso? E quão importante é preservar e encorajar essas tradições?

Há uma tradição, sim. Séculos de isolamento criaram uma vontade de criar cultura, uma respiração cultural própria com uma marca identitária. Quer nas artes populares quer nas artes ditas eruditas há algumas constantes. Falo do que conheço melhor, a literatura. Há muitos temas recorrentes. Um deles é o do regresso, o regresso à ilha ou às ilhas. É uma obsessão para mim, e tenho essa obsessão como autor. Há muitos autores açorianos, da poesia à prosa, que sentiram a necessidade de nomear o isolamento, o clima, a paisagem, a perseverança, a necessidade de partir e a vontade de regressar. Cada um à sua maneira.

Claro que as identidades se movem, não são fixas, recebem influências, contributos. As identidades duvidam de si próprias e isso é salutar. Os Açores de hoje são um território que, mantendo características ancestrais, é cruzado por novos ventos que o marcam e influenciam. Nesse sentido é natural que surjam novos condimentos a dar sentido à sentença: “Isso é muito açoriano”.

Vários dos jovens artistas açorianos com quem conversei em São Miguel falaram sobre a pressão de escrever ou cantar em inglês, na esperança de, assim conseguirem alcançar um público mais alargado. Qual é a tua experiência com essa ideia? Qual é a importância, digamos, de veres o teu trabalho traduzido?

A importância é grande, sem dúvida. Embora se ficar pela minha língua fico muito bem servido. Percebo que quem canta num palco tenha essa vontade de se fazer compreendido pelo maior número de públicos. Os festivais de música e o espírito de comunhão que geram favorecerão essa vontade de comungar de uma língua comum.

Mas também entendo e respeito quem queira usar a sua própria língua como arma. Tenho espreitado o novo fenómeno do rap nos Açores, por exemplo. E acho que ganha força por ser dito/cantado no português dos Açores – neste caso de São Miguel e da Terceira. Ou seja: há espaço para tudo. E é tão bom ouvir hoje, em 2018, os tuaregues do Mali Tinariwen. Como o italiano Paolo Conte, que este ano faz 80 anos. E também o português Legendary Tigerman, que optou pelo inglês. Ou a Maria Bettencourt. Ou o Rafael Carvalho, que optou pela língua da viola da terra.

Quando geres vários projetos de escrita em diferentes áreas, como é que organizas a tua vida criativa? És particularmente disciplinado com o teu tempo?

Tento ser. Na terceira resposta penso que respondi a esta questão.

O que fazes quando te sentes criativamente bloqueado? Ou quando algo parece que não funciona?

Falo com alguém. O diálogo desbloqueia e faz surgir novas ideias a partir daquilo que as pessoas dizem. Às vezes basta um telefonema, outras vezes é preciso um encontro num café ou num bar. Descentrarmo-nos de nós próprios ajuda a encontrar novos caminhos criativos. Não ficarmos presos na armadilha que o nosso próprio cérebro criou. Ler ou dar uma volta também ajuda.

Quando algo parece que não funciona, às vezes, é importante deixar arrefecer. Se um capítulo de um livro não parece estar no ponto o melhor, com frequência, é deixá-lo como está durante um tempo e só depois voltar a trabalhá-lo. É como o comando da televisão que por vezes é teimoso e não quer mudar de canal. Não vale a pena lutar contra ele ou atirá-lo contra a parede. O melhor é pousá-lo no sofá e ir ler um livro, e mais tarde tentar novamente carregar no botão, com outra calma.

Que conselho darias aos jovens escritores? Há coisas que gostarias de ter sabido quando eras mais jovem que tiveste de aprender da maneira mais difícil? E que conselho darias especificamente a jovens escritores açorianos, ou autores portugueses no geral?

Não dou conselhos, posso dar pistas. Porque dar conselhos pode parecer um gesto paternalista. Uma sugestão: para quem quer levar a escrita a sério, parece-me decisivo tentar melhorá-la. Isso só se consegue com muita leitura, escrita e reescrita; com conversa com outros; com o confronto com as próprias dúvidas. Passar todo o dia nas redes sociais também pode ser prejudicial para quem precisa de silêncio para pensar e escrever. É preciso, penso, saber desligar.

Neste ponto da tua carreira, como defines sucesso?

Sucesso, para quem escreve, é escrever, procurar ser imaginoso e exigente na escrita e ter um conjunto de pessoas, maior ou menor, que se interessa pelo que escreves. E é saber lidar com os altos e baixos, com a confiança na urgência em dizer alguma coisa por escrito e com aqueles dias em que parece que não faz qualquer sentido escrever.